Os caminhões norte-americanos diferenciam-se expressivamente dos europeus e sul-americanos, em termos de requisitos simbólicos. As cabines são maiores, mais robustas e rebuscadas, em termos de acabamentos.
As indústrias automobilísticas norte-americana, européia e asiática são "completamente diferentes em estilos", segundo Holzmann (2001). Este relata que a Volvo teve dificuldades para entrar no mercado norte-americano, onde as pessoas geralmente gostam de caminhões com um "visual pesado" e com um aspecto mais "macho man" (ver Figura 283), porque a Volvo entrou com um "produto mais refinado, com acabamento de carro", que, para os norte-americanos, "parecia mais feminino, pela qualidade de acabamento" (ver Figura 284). A Volvo só conseguiu estabelecer-se no mercado norte-americano depois que comprovou as significativas "vantagens tecnológicas" de seus caminhões, principalmente na parte de motor, em relação aos concorrentes.
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| Figura 283 - caminhão Freightliner XL Classic e detalhes de interior e exterior (eua, 2003) |
| NOTAS: A Freightliner é uma marca pertencente à corporação DaimlerChrysler |
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| Figura 284 - caminhão Volvo t-3705-00 e detalhe de interior do caminhão volvo t8-2086-97, comercializados no mercado norte-americano (2003) |
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No Brasil, a configuração dos caminhões tem se aproximado mais da linha européia, apresentando, no entanto, certas particularidades.
A falta de um atendimento mais específico, de acordo com as características e necessidades locais, tem levado muitos motoristas a acrescentarem acessórios em seus veículos, para suprir requisitos particulares, inclusive simbólicos (ver Figura 286 e 288).
Na parte de revestimentos de cabine, é muito comum a gente ver que, de cada três caminhões, em dois o cara forrou todo o piso da cabine. Eles põem aquelas coisas mais esdrúxulas possíveis; aqueles plásticos brilhantes, ou aqueles pelegos... O motorista gosta de “customerizar” o seu ambiente. Então, é engraçado, é uma aventura entrar em uma cabine de caminhão. Tem aquelas coisas que os caras penduram, os enfeites... É muito pitoresco! Eles adoram acessórios. Há empresas, no Brasil, que vendem acessórios. A Bepo, por exemplo, é uma empresa que só vende acessórios e acho que está quase do tamanho da Volvo. (HOLZMANN, 2001).
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| Figura 286 - detalhes de interior de caminhões Volvo NL 10 340 e Scania 112 HS, com acessórios que não são itens de série: cortina; revestimento de piso, câmbio e assentos (brasil, 2002) |
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| Figura 288 - detalhes de um caminhão scania 1115 e de um caminhão volvo 340, mostrando adesivos colocados nos vidros (brasil, 2002) |
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No Brasil, “se têm o carro como sinal de status”, e a compra é mais “impulsiva”, enquanto que os consumidores europeus e japoneses “conseguem fazer uma compra mais racional, mais dentro das necessidades”, conforme observa Nakamura (2001). Há muitos casos, por exemplo, em que a pessoa quer ter um carro grande, porque lhe dá status perante a família e os vizinhos, e não porque realmente necessita de um veículo de tal porte. Ou, então, quer ter um carro próprio para estradas de terra, como o utilitário esportivo Land Rover, embora só vá utilizá-lo na cidade, no asfalto.
E, em relação à conotação social dos veículos, “o europeu é menos ligado nisso que o brasileiro, para quem o carro é um bem de imagem de sucesso, de posição e ascensão social. Então, o próprio fato de se ter um carro mais caro...”. (RAMOS, 2001).
O valor de status dos automóveis para o brasileiro acaba promovendo trocas mais freqüentes dos mesmos e a colocação de acessórios.
[...] o europeu se preocupa menos com acessórios do carro que o brasileiro. É muito mais comum se ver, no Brasil, as pessoas colocarem roda de liga leve, pneu mais largo. O brasileiro cuida mais do automóvel, embeleza mais o automóvel. Eu percebo que o europeu pega o carro para o uso mesmo. Alguns gostam de ter algo a mais, mas não é tanto quanto aqui no Brasil. (NAKAMURA, 2001).
O brasileiro gosta muito de automóvel, gosta de mostrar o seu carro, e o carro popular ele só compra porque sai mais barato, mas ele quer conforto. Ele quer vidro elétrico, umas rodas bonitas que estão na moda, rodas de liga leve, rodas grandes com perfil baixo. (BARONE, 2001).
Vários dos acessórios instalados em automóveis preenchem requisitos simbólicos, com o objetivo de alterar a aparência dos mesmos, sem que haja uma justificativa plausível, em termos de função de uso. São exemplos os aerofólios, saias e spoilers, que, de acordo com pesquisa realizada pela rede Chevrolet, representam cerca de 20% do total de acessórios comercializados, e as rodas de alumínio e a ponteira de escapamento, que representam cerca de 11% do total. (TTI BRAS, 2003, p. 08).
Os requisitos dos produtos variam, também, entre as regiões de um país, em vista da diversidade existente entre as mesmas. Os consumidores da região Nordeste do Brasil, por exemplo, dão menos importância à aparência do carro do que os do Sul e Sudeste, valorizando mais os requisitos de uso, conforme relatam Kraemer (2002) e Ramos (2001). “... eles [do Nordeste] não têm uma ligação tão grande com o design do carro quanto têm o Sulista, o paulista e o carioca, que se atêm muito mais ao desenho do carro. Lá é muito mais uma questão funcional”, afirma Ramos (2001).
E a preferência por determinadas cores também varia entre as regiões do Brasil, segundo Barone (2001).
Faz-se necessário, portanto, uma abordagem cultural e de design não reducionista e não fundamentada em estereótipos, mas voltada a uma melhor adequação dos produtos às necessidades e realidades particulares da sociedade.
Sob este prisma, destaca-se a importância do desenvolvimento de uma pesquisa contínua e aprofundada sobre as necessidades e anseios das pessoas, às quais se destinam os produtos, bem como a relevância do papel dos designers locais na compreensão do amplo espectro de características e requisitos culturais, no desenvolvimento de produtos para os mercados locais, na medida em que os mesmos se encontram mais diretamente vinculados a tais contextos. █ |
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